Central Anitta » Anitta concede entrevista ao site espanhol Jenesaispop
10
maio
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Em entrevista ao Jenesaispop, Anitta falou sobre parceria (profissional e pessoal) com J Balvin, criticas, apropriação cultural, relação com Iggy Azalea após “Switch” e mais. Confira a entrevista traduzida na íntegra.


Com o surgimento do pop latino, ficou claro que os charts britânicos e americanos são bons, mas não são tudo nesta vida. A cantora brasileira Anitta é um expoente. Sem número 1 no Reino Unido ou na Billboard, o número de acessos de hits como “Downtown” com J. Balvin, a hipnotizante “Vai Malandra” ou “Machika” são contados por centenas de milhões no YouTube. Aproveitando sua visita a Madri na semana passada, pudemos conversar com ela em um hotel do centro sobre os novos tempos da música pop, do pop latino, da apropriação, da importância de uma boa melodia independente da produção ou da mensagem de sua música em torno – ou não – da sexualidade.

J: Brasil é uma potência musical muito grande: há muita gente e muito interesse pela música, por que para você é importante um mercado musical como o da Espanha?
Anitta: É um sonho. Os artistas brasileiros não sentem a necessidade de sair. É quase como um continente porque é tão grande que você pode ser muito feliz fazendo a música que você faz, e depois ir para outros países em férias e ter sua privacidade. Mas para mim é um desafio, quando vejo algo que parece impossível, quero fazê-lo. Muitas pessoas me disseram que era impossível fazer o que faço hoje e é por isso que eu queria fazer isso. Eu não queria no começo, mas uma música minha em português começou a tocar aqui na Espanha, “Show das Poderosas“. Em Portugal é normal, mas a Espanha era muito nova para mim. Em 40 Principales eles me pediram para cantar, eu vim aqui e não consegui falar uma palavra de espanhol. 5 anos atrás. Eu me senti muito mal porque eu amo me comunicar, eu tinha vergonha da tradução na TV ao vivo e eu ficava louca. Quando voltei para o Brasil, contratei um professor de espanhol e foi assim que começou meu desejo de aprender espanhol. Meu professor me contou que a história do reggaeton era a mesma do funk no Brasil, ele me ensinava coisas novas e eu estava muito interessada. Comecei a viajar para conhecer a indústria de outros países, e assim conheci J Balvin. Eu fiz outra viagem apenas para conhecer música.

J: Houve um tempo em que trabalhou com o Major Lazer, Iggy Azalea … teria representado um salto internacional para você, mas na verdade, agora, parece que abre mais portas trabalhar com um artista latino. Quando você acha que houve uma mudança?
Anitta: Eu fiz “Ginza” com J Balvin para o Brasil e uma música com Maluma. Eu acho que foi a união desses movimentos. Aí então Major Lazer, Alesso… Mas J Balvin foi o mais importante de todos. Não só por “Machika” e “Downtown“, mas porque ele me ajudou muito nos bastidores, em coisas que não tinham nada a ver com ele.

J: Coisas como conselhos pessoais?
Anitta: Coisas da minha carreira: “que programa você vai fazer, pegue este telefone, leve esses contatos, vá para essa rádio”… me ligava com pessoas com as pessoas dizendo: “uma amiga vai lá”. E fiz o mesmo por J Balvin no Brasil.

J: Você trabalha cara a cara com seus colaboradores ou via e-mail?
Anitta: Eu sou minha empresária, gerencio minha própria empresa no Brasil e para administrá-la tem que ser por telefone. Eu não gosto do e-mail porque é muito demorado. Eu faço tudo por telefone. Se não, eu não poderia ser minha própria empresária.

J: Eu estava me referindo mais sobre [parceiros de] composição…
Anitta: Às vezes, escrevo uma ideia ou envio “voice notes”. “Eu tive essa ideia, olhe!”, E eles me mandam algo de volta. Eu faço muitas coisas assim em português. Eu trabalho com os mesmos produtores faz 6 ou 7 anos. Estamos muito acostumados com isso. Quando eu digo algo, eles já sabem [o que eu quero].

J: A melodia, produção ou ritmo é mais importante para você?
Anitta: A melodia. A produção pode matar, mas também pode salvar uma música. Mas quando você tem uma boa melodia você não precisa de nada, para mim essa é a melhor música de todas. Quando eu faço uma música só com a voz, essa música é muito bonita. Para mim, essa é a chave: uma música que não precisa de produção. Nós podemos colocar a produção, é claro! “Vamos colocar a produção para ser mais comercial”, obviamente, como em todas as músicas, mas se você canta e não precisa de mais nada, é uma boa música.

J: Este é também o caso de “Vai Malandra“?
Anitta: “Vai Malandra” é uma música que precisa de produção. Se eu cantar ‘Vai Malandra’ para você aqui, não será tão incrível, porque tem uma parte mais falada, menos cantada. Mas a parte cantada (cantarola a parte de “Vai Malandra“), isso é muito forte. Essa melodia é a chave.

J: Quando essa música saiu bombou no Youtube e teve milhões de acessos no Spotiy Brasil, achei que poderia funcionar melhor nos Estados Unidos e na Espanha. Mas não…
Anitta: Com “Vai Malandra“? Eu não esperava nada. Apenas no Brasil. Eu fiz um projeto chamado “Checkmate”: fiz músicas em outros idiomas, um trabalho dedicado a cada lugar. Felizmente foi mais bem sucedido do que eu esperava, minha intenção era apenas ter bons números no Brasil para apresentar que eu canto em inglês, canto em espanhol… mas não tive grandes sonhos. “Vai Malandra” foi a finalização do projeto “Checkmate”, para que meu público no Brasil não dizer que eu não cantava mais em português, que eu não gostava mais do meu país. “Vai Malandra” foi totalmente para o Brasil. Eu nunca imaginei que outros países ouviriam “Vai Malandra” por ser um funk, que é um novo ritmo, que pessoas de outros países ainda não conhecem tão bem. E porque é em português, porque a língua é uma barreira muito grande. Eu fiquei muito surpresa.

J: Mas nos Estados Unidos muitas canções latinas fizeram sucesso.
Anitta: Latinas sim, mas em português não. A comunidade latina que fala espanhol nos EUA é muito grande, mas em português, não muito. E a linguagem faz muita diferença.

J: Os Estados Unidos são importantes para você ou, neste momento, é só mais um país?
Anitta: É bom. Antes eu pensava mais: “Eu quero, eu quero, eu quero!”. Mas agora que tudo está indo muito bem na minha carreira, estou muito realizada. Eu amo a língua espanhola, as pessoas, o público, eu quero aproveitar mais deste momento sem pressa. Eu não preciso de pressa. Eu tenho 25 anos. Se acontecer em outros países, se aparecer uma música que eu gosto, eu vou fazer. Mas eu quero fazer música que eu amo, não fazer música para conseguir algo, um público, um país. Eu quero fazer o que eu gosto. Não fazer uma música porque as rádios vão tocar isso. Se eu não [amo] ela…

J: Por que você gravou o vídeo de “Vai Malandra” em agosto, mas só lançou em dezembro?
Anitta: Porque eu gravei na favela como parte do que seria “Checkmate”, a última tacada, o último movimento. Eu tirei as fotos, e a expectativa era ótima. As pessoas diziam: “O que está acontecendo?” Eles esperaram pela música (Vai Malandra) e toda vez que eu saía com outro tema (“Downtown“, etc), as pessoas diziam: “Não é em português!”. Deixei claro que para eles, o Brasil, a favela, o funk, estariam no final de tudo.

J: O que as pessoas opinam te influencia?
Anitta: Sim, porque eu queria chamar a atenção para todas as músicas. Se eu tivesse lançado um funk no começo, “Vai Malandra” teria sido o maior e os outros não teriam tido a atenção necessária.

J: Em todo caso, sempre haverá críticas: se você cantar em outro idioma, [vão criticar] porque você canta em outro idioma. Se você está na favela, vão criticar por apropriação…
Anitta: Do apropriação eles falavam pouco, mas eu digo que: “olha, estou mostrando algo que faz parte da minha vida”. Agora eu moro em outro lugar? Sim. Agora tenho dinheiro? Sim, mas os 8 ou 9 anos da minha vida foram assim, como fizemos no vídeo.

J: Como foi a sua vida quando criança e adolescente?
Anitta: Muito simples. Eu ficava muito em casa porque não tinha dinheiro para sair. Morava em um bairro no Brasil que para ir perto da praia era muito perigoso. Eu não tinha dinheiro para pagar condução, então ficava em casa brincando com amigos da minha rua, ou com minha mãe, minha família. Uma vida feliz mas perto de casa. Brincando na rua com as outras crianças, mas muito felizes.

J: E é daí que vem a ideia do biquíni com fita isolante? De não poder comprar um…
Anitta: Não, não de mim. Eu costumava fazer este banho de sol, porque é muito quente no Brasil, mas a praia estava longe e você tem que gastar muito dinheiro [para ir]. Então você fica em casa tomando banho de sol. Essa ideia da fita surgiu nesses lugares no Brasil onde eu morava. Mesmo que eu não more mais lá, ainda visito minha família, dou doces para as crianças e vejo tudo. Começou a moda da fita e eu coloquei no meu vídeo. Eu trouxe a garota que criou essa ideia para o vídeo (Erika Bronze).Ela é a primeira de todas que aparecem no clipe, colocando as fitas.

J: Sua música tem um componente sexual muito forte. A música pop sempre teve isso, de Elvis, Michael Jackson… Você acha que o componente sexual torna isso, como arte, menos valorizado?
Anitta: É parte do interesse das pessoas: quando querem se divertir, quando querem dançar, quando querem coisas que fazem você pensar em diversão, elas pensam em sensualidade. Eu tenho minha sensualidade, eu amo dançar, nas letras também. Mas o que estou tentando fazer é usar isso para passar mensagens mais importantes. Como a favela: era para mostrar uma coisa feliz em um momento muito difícil para o Brasil. Eu queria mostrar uma parte bonita. Com a minha celulite eu queria falar com as meninas: se você tem celulite, não vai chorar por isso. As mulheres têm. Quando olham para as revistas, pensam que apenas elas possuem imperfeições, e queria mostrar que eu, sendo artista, também tenho. Quando convidei a drag queen de “Sua Cara“, foi para passar uma mensagem: também merece respeito, também merece trabalhar. Porque no Brasil as travestis não são muito respeitadas. Meu público é muito jovem e nessa idade eles não gostam muito de ouvir. “É chatooooo!” Eu tento passar uma mensagem de uma maneira engraçada, quando eles ouvem a música de uma maneira engraçada, eles dizem: “olhe, uma drag queen”, e eles começam a debater sobre isso sem sentir que estão fazendo algo importante. Quando coloquei a flor da Amazônia no meu vídeo foi porque o presidente do país quis liberar o desmatamento e achei muito importante que elas prestassem atenção a isso. Sem falar, eu coloquei e as pessoas disseram: “Obrigado, porque o turismo é muito baixo e é importante que as pessoas queiram vir porque traz dinheiro, incentiva a economia”. Eu sempre tento fazer algo que faça as pessoas pensarem, não apenas uma música que faça as pessoas dançarem.

J: Uma colega escreveu um artigo que eu achei muito interessante, dizendo que ela achou que viu nos vídeos de Madonna, a Madonna sendo sua própria fantasia sexual, com 7 garotos, etc., mas Beyoncé dedicou-se mais do que tudo à fantasia masculina. Qual seria o seu caso? Você se direciona mais para o público masculino ou faz os vídeos para si mesmo?
Anitta: Eu faço para as mulheres, porque eu quero que as mulheres se sintam livres para fazer o que elas querem. Há mulheres que gostam [de mostrar sua sexualidade], mas têm medo de ser julgadas e têm que ser livres para escolher o que querem fazer. Eu tenho uma música chamada “Will I See You” com Poo Bear, o compositor de Justin Bieber, e no vídeo eu estou completamente nua. Mas a música é romântica, é a música mais difícil que eu cantei, e eu queria mostrar esse lado oposto. Eu posso cantar bem e ser sensual, ser romântica e ser sensual. Para ser romântica, não preciso deixar minha sensualidade de lado, essa é a mensagem que queria transmitir. Eu me dedico muito para as mulheres, para que elas olhem para o que eu estou fazendo, encarem as críticas e digam: “Eu também posso fazer isso”.

J: Eu li que álbum não é importante para você, que você prefere músicas soltas.
Anitta: Porque às vezes as pessoas, para completar o número de músicas em um álbum, colocam qualquer música e eu não gosto disso. Eu só quero as melhores.

J: Você não escutou álbuns inteiros quando criança?
Anitta: Escutava, mas acho que agora é um momento diferente. As pessoas ouvem uma música e se cansam, procuram outra. Eles se cansam muito rápido de tudo. Para mim, é mais inteligente fazer uma música, outra … com pequenos espaços entre elas, não tão próximas umas das outras.

J: Mas então você nunca vai ganhar o Grammy de melhor álbum.
Anitta: Não me importo!

J: O que você sabe sobre música espanhola?
Anitta: Eu escutei um pouco, ouvi mais músicas em espanhol, eu já sabia mais em inglês. Eu amo Alejandro Sanz, eu cantei para ele no Grammy Latino, eu cresci ouvindo sua música, o que é incrível. E eu amo Luis Miguel. Eu amo! Eu quero ouvir mais coisas porque adoro falar sobre referências antigas, saber sobre referências antigas.

J: Como está sua disciplina diária em termos de composição ou gravação? Você manda ritmos e canta sobre eles, o contrário…?
Anitta: Não. Eu acordo e se eu tiver uma inspiração, eu pego o telefone e digo [para um dos produtores]: “olha essa ideia”. Se não tenho inspiração, não fico em casa e digo: “Tenho que fazer (forçadamente) uma música”. Às vezes eu estou em casa, no banheiro e vem para mim, e é isso. Eu prefiro assim.

J: E sua empresa é toda sobre Anitta, certo?
Anitta: Sim.

J: Eu suponho para fazer um produto tipo a Rihanna, com perfume, acordos com marcas…?
Anitta: Não. Eu tenho uma empresa porque não tenho um empresário no Brasil. Tenho meu escritório com meus funcionários, um para lançamentos, outro para shows… A empresa é meu escritório, onde faço minha carreira, porque não tenho um empresário.

J: Você sabe alguma coisa sobre Iggy Azalea desde a sua colaboração? Foi uma música muito legal…
Anitta: Não tenho contato, mas foi muito importante para mim.

J: Está sumida…
Anitta: Há momentos na carreira de cada artista. Mas eu gostei da música e ela foi muito generosa comigo, foi a minha primeira apresentação na televisão dos EUA, no programa Jimmy Fallon: uma grande conquista para o meu país. Foi um momento muito importante.

J: O que você acha que aconteceu com ela? Você acha que ela pode ter perdido a carreira pela questão de apropriação?
Anitta: Eu não sei … acho que é uma coisa do momento. Às vezes a pessoa não dá importância a isso. No momento eu tenho 4 músicas no top 20 do Brasil, mas eu não as fiz pensando em ter números. Foi uma consequência, como “Indecente“. Essa música era que eu estava em Miami e meu aniversário estava chegando. Eu estava com os compositores de “Machika” e “Downtown” e queria convidá-los para uma festa porque eu amo a festa e fiz uma em minha casa. Eu pensei: “em 20 dias eu quero fazer um vídeo ao vivo na minha festa de aniversário”. E é por isso que lancei a música, perguntei à gravadora se autorizava este lançamento [mesmo estando com outros singles no mercado]. Eu pensei: “Eu quero me divertir, fazer a música com meus amigos, depois pensamos na divulgação”.

J: E [as músicas] vão se sustentar espontaneamente?
Anitta: Não. Algumas músicas eu tenho que planejar. Estou planejando os próximos para que todos possam ouvir e opinar, mas às vezes faço isso apenas por prazer.

J: Que música “avulsa” você tem orgulho? De álbuns antigos ou que não tenham sido tão bem sucedidos.
Anitta:Will I See You“, não foi um grande sucesso porque é romântica, a música romântica é mais difícil de pegar. É uma bossa nova. Uma música mais lenta…


Fonte: JeneaisPop
Tradução: Central Anitta

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